segunda-feira, 23 de maio de 2016

Videojogos e Namoradas(os) - Um Prazer ou um Terror?

O conhecimento do Mundo dos Videojogos na Sociedade Portuguesa, apesar de estar num desenvolvimento crescente, tem ainda uma grande parte presente na ignorância, não sendo muitas vezes compreendido como é vivida esta actividade nem porquê. Em vários casos, tal actividade afecta também muitos relacionamentos íntimos, sejam eles namoros ou casamentos, não sendo incomum ouvirmos companheiras a queixarem-se que não têm atenção ou que "ele está sempre no computador".

Nesta discussão é fundamental distinguirmos se existe realmente uma actividade de jogo patológica ou não, sendo que como sabemos através de outros posts, uma vivência saudável integra um equilíbrio de várias áreas de vida do sujeito, inclusive a relacional/social.

Na América, 20% dos casos de Divórcio de pessoas com adição aos videojogos, ocorreram devido à sua actividade de jogo patológica. Já 70% das esposas referem que a actividade patológica de jogo causava tensão na relação (Humphries, 2014). Existem também relatos que com a utilização da internet, inclusive para os videojogos, a taxa de divórcios aumentou devido a esse motivo (Young, 1999). Sabe-se também que uma das áreas que é directamente mais afectada pela adição aos videojogos online é a área das relações interpessoais, sendo esta bastante desinvestida nestes casos, promovendo um estado de isolamento que leva muitas vezes ao afastamento das pessoas mais próximas.


Mas afinal - relativamente ao jogar videojogos - o que provoca tensão nas relações (quando @ companheira@ não é jogador@)? 


No caso de maridos jogadores e esposas não jogadoras, a ciência demonstra que não são necessariamente as horas passadas a jogar que incomodam as companheiras (no caso de casais casados ou a viver na mesma casa), mas sim aquilo que a actividade de jogo afeta com relação às rotinas diárias de casal em vários momentos:

- Na hora de ir dormir, sendo que as esposas gostam normalmente de se deitar com os seus companheiros, ficando insatisfeitas quando este não se deita ao mesmo tempo que ela, desejando sentir um maior investimento no casamento (Sifferlin, 2012);

- Nas tarefas domésticas; já que o marido poderá não querer participar em tais tarefas como lavar a loiça, aspirar a casa, estender a roupa, etc. dando a desculpa de ter de estar no computador (Young, 1999);

- Nas responsabilidades diárias de ir buscar os filhos, jantares com a família, ir ao trabalho, etc. já que o jogo online poderá ser utilizado como desculpa para não estar presente nessas actividades (Young, 1999);

- Na participação em outras actividades como estar com amigos presencialmente, ir passear, ir a jantares e almoços de família, etc. que podem também ser negligenciadas devido ao jogo.

Realizando um paralelo com o namoro, este exige a marcação de encontros, já que o casal não se encontra a viver na mesma casa. Este, durante esta fase, tem a possibilidade de ser um fator protetor, já que no momento do encontro o jogador deverá realmente focar a sua atenção na sua companheira tendo o restante tempo para outras actividades (dependendo do contexto e tempo que o casal tem para estar junto). Porém nem sempre isso acontece, podendo criar insatisfação na relação.

Mesmo em situações não patológicas há tensão entre o casal devido ao uso dos videojogos por parte de um dos membros do casal, muitas vezes por conflito de interesses. Uma base fundamental num casal saudável é realmente o respeito pelo espaço individual de cada um, já que na verdade, apesar de serem um casal, existem duas pessoas na relação, com interesses e personalidades distintas. Porém tal afirmação não significa um desligamento relativamente aos interesses do outro. Por exemplo, se o meu companheiro gosta de videojogos e eu não, não é solução eu proibi-lo de jogar, já que isso iria quebrar toda a independência dele relativamente a fazer aquilo que gosta, no entanto, sabe-se que tem um efeito extremamente positivo nos casais o despender algum tempo interessando-se pelos interesses d@ companheir@, já que este irá sentir que pode partilhar aquela parte da sua vida com a pessoa com quem está também, mesmo não sendo a sua temática/actividade favorita. Deste modo treina-se a adaptação e flexibilidade dentro do casal.

Em casos de Adição aos videojogos, a postura poderá ter de ser diferente, podendo ser necessário pedir ajuda profissional, porém estes são casos que afectam uma minoria da população gamer.

(Apesar de ao longo do post ter realçado o jogador como sendo do sexo masculino, não quer dizer que não possa existir a mesma situação de modo reverso, ou até em relações do mesmo sexo, porém de momento é realmente mais comum o jogador de sexo masculino ser aquele que mais participa na atividade de videojogos.)

Que factores podem proteger os casais deste tipo de tensão em casos não patológicos?

Os factores protetores de tensão em cada casal são sempre únicos, pois cada casal tem a sua própria dinâmica estruturada por duas pessoas distintas. Claro que este tipo de factores dependerão sempre do contexto de cada casal.

  • Um dos factores que se demonstrou como muito protector na vivência em casal é ambos os membros do casal partilharem o mesmo interesse pelo Mundo dos Videojogos (Sifferlin, 2012; Humphries, 2014)). Existindo o mesmo interesse, não haverá tanto a possibilidade de incompreensão com relação àquele Mundo. Porém conflitos podem emergir se um dos membros viver os videojogos online de modo patológico e o outro não, ou se ambos o viverem de modo patológico (neste ultimo caso neglicenciando todas as outras áreas de vida em casal). 
  • Como referido anteriormente, em casos em que os casais (que vivam ou não em conjunto) passam muito tempo juntos, é sempre importante o casal compreender os hobbies de cada um e aquilo que cada um gosta de fazer no seu tempo livre, discutindo previamente as actividades a fazer e quando as fazer (em conjunto ou individualmente) sem existir a necessidade de neglicenciar nenhuma. Tal irá exigir o respeito pelos hobbies do companheiro(a) e até mesmo a demonstração de interesse pelo hobbie do outro, mesmo que seja até aquele momento algo que nunca chamou à atenção. Neste caso, levar a namorada a encontros presenciais com os outros jogadores, por forma a ela conhecer e perceber as pessoas com quem constantemente mantém contacto ao jogar videojogos pode ser uma forma de ela aceitar melhor toda essa vivência, assim como explicar-lhe como funcionam os jogos no geral, e quem sabe estimular um interesse de jogar ou assistir. 

Na verdade desde que haja disponibilidade, compreensão e flexibilidade dentro do casal dificilmente existirá conflito, podendo realmente esta actividade ser um "prazer". Porém em casos patológicos torna-se dificil levar o jogador a compreender que o jogo se está a tornar nocivo em todas as suas áreas de vida, assim como na relacional, sendo fundamental que haja uma postura calma, de não julgamento, mas onde se tenta arranjar soluções para que a pessoa tenha uma vida mais saudável: o estabelecimento de horários, comunicação acerca das necessidades e inseguranças em casal com relação ao comportamento d@ jogador@, e por fim caso exista essa necessidade o contacto com um Psicólogo.

Referências:

Sifferlin (2012). Is Online Gaming Messing up your Marriage? http://healthland.time.com/2012/02/16/is-online-gaming-messing-up-your-marriage/
Humphries (2014). Can Gaming affect your relationship?. http://blogs.tallahassee.com/community/2014/04/04/can-gaming-affect-your-relationship/
Young, K.,(1999) Internet addiction: symptoms, evaluation and treatment. In L. VandeCreek & T. Jackson (Eds.). Innovations in Clinical Practice: A Source Book (Vol. 17; pp. 19-31). Sarasota, FL: Professional Resource Press.

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